Em primeiro lugar, dizer que respeito muito este assunto e que escrevo isto da forma mais leiga (porque não sou médica), humilde e sincera que conheço. Decidi escrever pela quantidade de comentários que li hoje sobre o suicídio de Anthony Bourdain.
Não sei muito sobre depressão, pelo menos quero acreditar que não sei muito sobre esta doença – é importante referir que não sou médica, mas aprendi algumas coisas nos últimos tempos. Em primeiro lugar, aprendi que sim, que depressão é uma doença - não é só uma perturbação psicológica, é uma doença biológica que afeta o cérebro e o corpo, e isto é a grande primeira aprendizagem. É uma doença séria e que deve ser encarada como tal. Depressão é um desequilíbrio na bioquímica cerebral que acontece com a diminuição de neurotransmissores como a serotonina – ligada à sensação de bem-estar. Se todos percebermos que a depressão é uma doença vamos encarar que pedir apoio médico especializado é normal. É tão normal como pedir apoio médico para qualquer outra doença. Se descobres uma doença como diabetes, não procuras um tratamento? Isto é realmente muito importante porque mexe com mentalidades. E porque é que é tão importante mexer com mentalidades? Porque nos ajuda a perceber os sinais da doença em nós mesmos e nos outros e isto é fundamental para um diagnóstico precoce, que aumenta exponencialmente a taxa de sucesso do tratamento. A verdade é que por falta de conhecimento ou aceitação da doença, grande parte das pessoas que sofre de depressão não procura ajuda. E porquê? Ou porque não têm perceção dos sinais, ou porque não encara a depressão como uma doença (não foi ensinada a fazer isso) e/ou tem medo de procurar ajuda psicológica/psiquiátrica com receio ou vergonha do que a sociedade vai pensar – tem medo do preconceito e arrasta o processo tempo demais.
Se tivermos sentados num café e alguém vos perguntar se acham que os acidentes de viação em Portugal matam muita gente, qual será a vossa resposta? Possivelmente vão todos dizer que sim. Que os acidentes de viação matam muitas pessoas em Portugal. Curioso: Sabiam que morrem mais pessoas vitimas de depressão que em acidentes de viação? É verdade. Sabem quantas pessoas sofrem de depressão em Portugal? Estamos a falar de 400 mil pessoas por ano em Portugal. Não sei se perceberam…400 mil por ano. Mais? Sabiam que Portugal é o país que tem a maior taxa de depressão na Europa? E o segundo no Mundo? No Mundo…nesta bola gigante que é o Mundo, nós somos os segundos.
Sabiam que de 8 em 8 horas em Portugal alguém se suicida? E que a cada hora alguém tenta o suicídio? Portanto, contas ao final do dia: 3 pessoas morrem e 24 tentam, todos os dias. Dia após dia. A maior parte de vocês conhece alguém que está a viver uma depressão. Pensem lá um bocadinho, na verdade não é estranho, porque a verdade é que 1 em 4 pessoas irá sofrer de depressão num futuro próximo. É muita gente. São muitas vidas, são muitas famílias, são muitos dos nossos amigos…é a nossa mãe, o nosso pai, o nosso irmão, a nossa tia ou prima ou és tu! Tu. E quando és tu, bolas…e se não acreditas que é uma doença e se não acreditas na ajuda que podes procurar, podes ser um daqueles 4 ou 24 por dia. Pelo menos é provável que o sejas.
Talvez não entendas do que é que eu estou a falar – que bom, é sinal que nunca sentiste – és o primeiro a perguntar ou a criticar: Suicídio? Mas quem é que quer morrer? É estranho não é. Nós, seres humanos que lutamos todos os dias pela sobrevivência – racional ou irracionalmente todos nós lutamos todos os dias pela vida. Quem é que quer morrer? Deixa-me dizer-te o que eu acho: eu acho que ninguém quer morrer. As pessoas que acabam com a vida delas não querem morrer. As pessoas que acabam com a vida delas só não querem viver mais assim. Fiz-me entender? Ninguém quer morrer, existem é pessoas que estão doentes e que não suportam mais a doença. Uma doença silenciosa e invisível. Uma doença incompreendida. Incompreendida por ti, por mim e pela maior parte da sociedade. Não vamos confundir depressão com uma fase depressiva, stress ou um mero mal-estar. Todos nós temos fases depressivas, mas essas fases duram dias, no máximo semanas e depois passam. Depressão é outra coisa e as boas noticias é que a taxa de sucesso do tratamento desta doença é de 70 a 80% dos casos, ou seja, o tratamento resulta e ele existe.
Vamos lá salvar vidas? Então vamos abrir a nossa mentalidade e trabalhar todos juntos nisto. Vamos estar atentos a nós mesmos e ás pessoas que nos rodeiam, vamos conhecer os sinais desta doença, os sintomas, a ajuda que podemos procurar e a forma como podemos ajudar alguém que está a passar por isto. Vamos falar desta doença nas escolas, nas universidades, nos cafés, no nosso trabalho, na nossa mesa de jantar. E mais do que isso, vamos respeitar esta doença e respeitar o tratamento, como respeitamos todas as restantes doenças e os restantes tratamentos. Vamos dar a este assunto sério a seriedade que ele merece. Porque uma doença que mata, que entra pelas nossas casas e que nos leva as pessoas de quem gostamos merece o nosso tempo e a nossa seriedade. Não achas?
Podemos ainda prevenir esta doença. Como? Não sou médica, mas apontaria algumas coisas que ajudam muito: é muito importante fazer uma gestão do nosso stress diário e conversar sobre as dificuldades do dia a dia, nós somos humanos não somos máquinas. Ninguém espera que sejamos super-mulheres e super-homens. O que nos distingue das máquinas são as nossas emoções, boas ou más, aprender a sentir cada uma delas é fundamental e partilhá-las também. Aprender coisas novas, ler e principalmente manter a mente longe de pensamentos negativos e preocupações excessivas, isto a par de uma alimentação equilibrada, de uma rotina de sono saudável e de exercício físico regular, que incentiva a libertação de substancias importantes para o humor.
Mas o fundamental e o que queria mesmo passar é: se a doença te bater á porta pede ajuda, aceita isso e entende que infelizmente a tua porta não foi a única. Vamos evitar frases como a que eu li hoje de alguém que profundamente desabafava com o Mundo a morte de mais uma vitima desta doença com a seguinte frase: “…que pena que procuraste uma solução permanente para um problema temporário.”
Sofia Neves