Assistimos recentemente ao maior surto de sarampo em Portugal durante todo o século XXI. Sei que todos sentimos que ainda agora começou, mas já praticamente atingimos o primeiro quinto deste século.
Segundo a atualização feita pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) no dia 13 de Abril (sarampo-atualizacão) seriam já 108 casos. Verdade que as repercussões em termos de sobrevivência foram mínimas com 101 desses 108 casos já curados e 7 em tratamento. Mas este caso trouxe à ribalta questões relacionadas com o plano de vacinação e sobretudo, e muito pertinente, a motivação de algumas pessoas para não vacinarem os filhos.
Em 1954, Thomas Peables isolou pela primeira vez o vírus do sarampo num laboratório, este avanço permitiu a John Enders desenvolver a primeira vacina para o Sarampo e a Maurice Hilleman produzir uma versão melhorada dessa vacina em 1963.
A vacinação contra o sarampo inicia-se em Portugal em 1973 e integra o plano nacional de vacinação a partir de 1974 sendo administrada tipicamente a crianças com 1 ano de idade. Em 1987 a vacina do sarampo (VAS) é substituída pela VASPR (Vacina tríplice contra sarampo, parotidite, vulgarmente papeira, e rubéola). Em 1990 introduz-se a segunda dose da vacina administrada entre os 11 e os 13 anos, idade que viria a ser reduzida para 5/6 anos em 1999 para aumentar a eficiência da vacina.
Os resultados da implementação destas vacinas podem ser compreendidos analisando os dados disponibilizados por exemplo por associações como a Organização Mundial de Saúde (WHO, do inglês World Health Organization) como é o caso do gráfico apresentado com os dados da vacinação e da incidência de sarampo entre 1980 e 2012 mostrando uma acentuada diminuição da incidência desta doença à escala global correspondendo uma taxa de incidência inferior a 10% a uma taxa de vacinação que ainda não chegou aos 90%.
No site da WHO podem ser consultados mais alguns dados, incluindo as incidências todos os meses em cada país.
Apesar da informação desatualizada no site da WHO é possível perceber que em Portugal o aumento da incidência da doença que era de praticamente 0 casos por ano já tinha aumentado drasticamente em 2017.
Havendo uma eficácia tão grande da vacina, como é possível surgirem agora surtos de sarampo tão de repente e em tantos países?
Este foi o tema que vos quis trazer para este meu primeiro artigo no “Notas e Anotas” e é importante tocar nas várias variáveis envolvidas nesta situação. Começando desde logo pelo que me parece ter sido a causa maior do problema, um artigo científico publicado por Andrew Wakefield em 1998. Wakefield e os seus colegas propuseram que haveria uma relação entre a toma da vacina do sarampo e o aparecimento de autismo. Este artigo (https://www.bmj.com/content/342/bmj.c7452) carece de consistência e é claramente especulativo, posteriormente acabou por ser retratado e confirmou-se que para além de especulativo era fraudulento e Wakefield que para além de se comprovar estar a ser pago para defender esta tese estava também a preparar uma vacina concorrente acabando por perder a autorização para exercer medicina.
Esta situação mostra o pior e o melhor lado da Ciência. É relativamente fácil que informação falsa seja disseminada e por isso é preciso muito espírito crítico quando se analisam resultados científicos inovadores. Mas mostra também que a filtragem da informação acontece e que mesmo que leve algum tempo, como aconteceu neste caso em particular, a informação mais confiável acaba por prevalecer. No entanto, o mal estava feito. E apesar de toda a informação divulgada a explicar que aquele artigo era fraudulento disseminou-se a ideia que as vacinas não eram boas para a saúde e por isso, sobretudo no Reino Unido, de onde é natural Wakefield e nos Estados Unidos da América as taxas de vacinação decresceram drasticamente. Este problema estendeu-se depois a outros países, tanto diretamente, porque os pais não vacinavam as crianças, como indiretamente, com pessoas não vacinadas a entrarem noutros países.
Potenciados pelo caso Wakefield mais três argumentos ganharam força. O argumento que a vacina não é 100% eficaz, o argumento que o sarampo não é uma doença assim tão grave e argumento que apanhar a doença permite uma maior resistência do que a vacinação. Passarei então a esmiuçar estes três argumentos salientando desde já que ao contrário do trabalho de Wakefield, todos têm um fundo de verdade embora nenhum deles justifique prescindir da vacinação.
Efetivamente a vacina VRSPR não é 100% eficaz. Esta afirmação é verdadeira. Possivelmente sobre todas as vacinas. No entanto, a vacina VRSPR tem uma eficácia extremamente elevada. A toma de uma dose apenas permite uma proteção de 93%, isto é, em cada 100 pessoas vacinadas apenas 7 poderão vir a ter sarampo. Quando falamos de tomar as duas doses esta eficácia passa para 97%. Isto justifica a vacinação de duas formas. Primeiro, porque asseguramos a proteção de 97% da população, a segunda, porque a ter 97% da população protegida estaremos também a assegurar a segurança dos outros 3% da população.
O segundo argumento que falei é que o sarampo não é uma doença grave. E efetivamente há um fundo de verdade nesta afirmação que se pode confirmar com os dados já referidos pelo SNS neste surto que aconteceu em Portugal apesar de mais de 100 pessoas terem contraído a doença nenhuma morreu. Por um lado, é um sinal que a doença não é demasiado agressiva, por outro é mais um indício que podemos confiar no SNS (também quando nos recomenda a vacinação). No entanto, apesar de em condições o sarampo ser uma doença tratável continua a ser uma doença mortal. Segundo a WHO o sarampo continua a ser uma das maiores causas de morte na infância. Para além das crianças (e também pessoas com mais de 30 anos) a doença pode ser particularmente perigosa em pessoas com deficiência de vitamina A, malnutrição ou ausência de cuidados de saúde podendo a taxa de mortalidade nestas condições chegar aos 30%. Mesmo em países desenvolvidos o sarampo é causa de morte de 1 em cada 1000 crianças, sobretudo relacionado com problemas como pneumonia ou encefalite sendo que estas podem ter repercussões mesmo nos indivíduos que sobrevivem à doença. Para além de tudo isto o sarampo está associado a perda de audição e/ou cegueira. Este é já um vasto conjunto de problemas para que mesmo que o sarampo seja tratável se tente prevenir esta doença.
Finalmente o argumento que o nosso sistema imunitário fica mais fortalecido ao apanhar a doença em vez de ser vacinado. Como já disse há um fundo de verdade uma vez que ao longo da vida vai-se perdendo a resistência dada pela vacinação (mesmo continuando em valores elevados tendo em conta a nossa esperança média de vida) e por isso a resistência adquirida quando se apanha a doença pode realmente ser vantajosa. No entanto, mais uma vez, este argumento tem também uma consistência duvidosa. Primeiro porque apanhar a doença é muito mais agressivo do que levar a vacina e por isso pode trazer várias complicações. Segundo, porque 7 a 10 crianças em cada 100.000 que contraem sarampo (podem ser 360 em cada 100.000 se considerarmos as crianças que contraem a doença durante o primeiro ano de vida) correm o risco de contrair panencefalite esclerosante subaguda no período de 7 a 10 anos depois de contrair sarampo. Esta doença embora relativamente rara é mortal em 95% dos casos o que a torna bastante preocupante. Para além destas razões, apesar de contrair sarampo tornar o individuo mais resistente a contrair novamente a doença parece haver claros indícios que o sarampo enfraquece o sistema imunitário durante pelo menos três anos, pelo que os indivíduos que contraem a doença tendem a sofrer de outras infeções quando comparados com indivíduos que receberam a vacina.
Citando um dos artigos que me inspirou (https://www.scimed.pt/geral/factos-sobre-sarampo-e-a-vacinacao/) “É necessário um esforço de toda a comunidade para que as vacinas sejam eficazes. É necessário que esse esforço de solidariedade seja feiot para proteger os mais vulneráveis. Talvez esteja na altura de falar da obrigatoriedade do PNV, um assunto que não devia levantar qualquer tipo de controvérsia.”
Acrescento ainda, a título pessoal, que sou um cético no que está relacionado com informação científica proveniente de empresas com interesses comerciais como são as empresas científicas. Mas confio na Ciência. E o caso Wakefield ensina-nos que mesmo que leve algum tempo a comunidade científica chega à verdade e esta acaba por prevalecer perante os interesses económicos.
Cria-se, no entanto, a necessidade de ter o Estado tão ligado quanto possível à investigação científica, por um lado para promover investigação em áreas que não parecem tão rentáveis a curto prazo e por outro para de alguma forma controlar a investigação desenvolvida pelos privados e para além disso, torna-se essencial educar a população para mais do que serem os outros a tomar decisões por nós podermos ser nós a tomar decisões conscientes sobre a nossa saúde. É com intuito de contribuir para este último ponto que me proponho a escrever-vos com regularidade neste Notas e Anotas falando um bocadinho sobre Ciência e de como podemos ter uma postura mais saudável.
Bem-vindo Notas e Anotas. Obrigado por teres chegado.