Como há anos acontecia, uma vez mais as férias de natal foram passadas na Granja Nova, onde o frio parecia mais forte, os dias mais ocupados e as noites mais longas, pois que em Foz Côa, onde se passava a maior parte do ano, as obrigações, as comodidades e brincadeiras eram bem diferentes.

Estávamos em 1975. Depois dos seis anos da escolaridade obrigatória, os adolescentes do concelho de Tarouca, para prosseguirem os estudos, tinham de ir para Lamego.
Recordo-me da recomendação do meu pai e da severidade com que foi proferida: “Agora, em Lamego, vai para os cafés jogar os jogos dos malandros, que te tiro da escola”.
Um dos jogos a que o meu pai se referia era o snooker. Acontece que, ao ver aquelas bolas brilhantes e multicores, que deslizavam nas mesas, provocava em mim uma espécie de atração fatal, nas horas de vazio escolar.
Um dia, o meu primo Rui, já experimentado naquelas andanças, desafiou-me para jogar snooker. Era o “click” que faltava para provocar o apagão da recomendação do meu pai. As sensações que tive, quando tacava e embolsava as bolas eram incríveis e indiscritíveis.
Desde então, quando tinha algum tempo livre e sempre que podia, ia praticar snooker. Nunca disse ao meu pai que não tinha seguido a sua recomendação, mas, também sempre soube compatibilizar este “jogo de malandros” com as minhas responsabilidades escolares.
Com o decorrer do tempo, conclui que o snooker é um desporto que me descontrai e funciona como um aditivo psicofísico. A partir de 1993, ano em que Ronnie O’Sullivan, com 17 anos de idade, venceu o mítico Steve Davis, vejo regularmente os torneios de snooker televisionados.
O reinado dos ingleses, neste desporto, está prestes a chegar ao fim. Os chineses e os alemães estão a incluir, massivamente, este desporto nas escolas. Não é por acaso que já surgiram bastantes talentos chineses no circuito profissional desta modalidade. E, eles não são malandros.