Todos nós já ouvimos falar do cancro. De tumores. De doenças oncológicas. Todos nós conhecemos alguém que teve cancro e recuperou. Todos nós conhecemos alguém que teve cancro e não recuperou.
Os problemas oncológicos são, infelizmente, uma presença assídua nas nossas comunidades e por isso já não são um problema completamente desconhecido do público em geral. Tenciono futuramente alongar-me um pouco mais nas explicações sobre este assunto abordando vários aspetos da doença incluindo o diagnóstico, a fisiologia da doença e alguns dos fatores de risco.
Neste artigo gostaria sobretudo de me focar nas estratégias de tratamento.
Recentemente ao conviver, mais uma vez, com algumas pessoas em diferentes estágios da doença percebi que a informação sobre os tratamentos é muito escassa. Isto preocupa-me porque a desinformação pode muitas vezes prejudicar a recuperação. Seja porque as pessoas assumem comportamentos de risco de forma mais ou menos inconsciente seja porque as pessoas assumem uma postura depressiva que debilita o organismo condicionando a recuperação.
Longe vão os tempos em que o diagnóstico de um problema oncológico estava associado a uma “sentença de morte”. Hoje em dia sabemos que existem diversos casos de recuperações bem-sucedidas e que diversas estratégias podem funcionar em diferentes circunstâncias.
Não me alongando muito nas definições e classificações dos problemas oncológicos, estes podem ser agrupados e classificados de diferentes formas. Uma das mais comuns é classificar um tumor como benigno ou como maligno. Em ambos os casos, existe um crescimento anormal de células (neoplasia). No caso do tumor benigno, todas as células são semelhantes e originadas a partir de uma mesma célula que sofreu uma mutação. No caso dos tumores malignos aos quais vulgarmente se chama cancro as células neoplásicas deixaram de ser todas semelhantes, acumularam-se mutações e as células podem invadir tecidos vizinhos, incluindo a corrente sanguínea tornando-se perigosas para outros órgão bem distantes do ponto onde surgiu inicialmente a doença (este fenómeno é no entanto posto em causa à luz do conhecimento atual mas é um assunto que penso explorar futuramente aqui no Notas e Anotas).
Falando das terapias para problemas oncológicos, salvo algumas exceções, a cirurgia continua a ser o método de tratamento com melhor taxa de sucesso. Sobretudo em situações que o problema está restrito a uma pequena área e é possível remover toda a massa tumoral sem deixar vestígios e assim impedindo que o tumor alastre para outras regiões do organismo. As grandes desvantagens da cirurgia acabam por ser sobretudo o facto de ser um procedimento extremamente invasivo e a limitação a um determinado espaço temporal e físico, caso o problema oncológico seja detetado tardiamente a cirurgia deixa de ser uma opção viável tanto pela menor taxa de sucesso como pela própria integridade do paciente.
Termos como quimioterapia e radioterapia que começaram por ser termos algo vagos para quem não é um profissional de saúde são hoje termos bastante disseminados. O objetivo destas duas técnicas é relativamente parecido embora sendo estratégias diferentes cada uma delas funciona melhor em diferentes situações. A quimioterapia consiste na aplicação de fármacos que promovem a morte celular. Isto permite eliminar, reduzir ou controlar o crescimento anormal que ocorre na região tumoral. A radioterapia é utilizada com a mesma intenção, mas recorrendo em vez de compostos químicos a um fenómeno físico que é a radiação.
Ambos os tipos de tratamento podem danificar células saudáveis pelo que apesar de os benefícios destes tratamentos ser tipicamente superior às desvantagens são tratamentos que têm que ser aplicados de forma moderada. Continuam a ser desenvolvidas estratégias para tornar as células tumorais mais vulneráveis a estes tratamentos do que as células saudáveis. Sendo que várias destas estratégias estão já implementadas em Portugal tornando os tratamentos tanto de quimioterapia como de radioterapia cada vez mais eficazes.
Circulam muitas notícias falsas sobre já ter sido descoberta a cura para o cancro, sobre as farmacêuticas não quererem que se saiba dessa cura. Tal não poderia ser mais falso uma vez que a farmacêutica que apresentar tal resultado ganhará uma vantagem de mercado relativamente às concorrentes que pagará de longe o investimento que tiver que fazer para lá chegar. Há por isso imensa investigação feita nesta área tanto com financiamento privado (voltado sobretudo para abordagens já estudadas e com resultados preliminares promissores) e investimento público (bastante mais diversificado incluindo análise exploratória de hipóteses ainda não provadas). Torna-se essencial manter estes dois tipos de investimento para bem da evolução dos tratamentos oncológicos e da melhoria das condições de tratamento e acompanhamento.
Entre as novas estratégias de tratamento tem crescido muito rapidamente a imunoterapia (valeu a James Patrick Allison e a Tasuku Honjo o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina 2018). A imunoterapia é uma estratégia que permite recuperar a capacidade do organismo de reconhecer as células tumorais e de as eliminar. Isto traz grandes vantagens nomeadamente o facto de ter efeitos secundários menos agressivos e sobretudo a possibilidade de reduzir as hipóteses de recidiva (ou seja de reaparecimento da doença) uma vez que o organismo vai manter essa capacidade de controlar as células tumorais mesmo após finalizado o tratamento.
No entanto a imunoterapia tem também alguns efeitos secundários mesmo que não sejam tão agressivos. Para além que a sua aplicação envolve diversas variáveis e estratégias. Os tratamentos de imunoterapia não são todos iguais e por isso diferentes tratamentos podem ter eficácias diferentes em pacientes diferentes e em tipos diferentes de doença oncológica (até mesmo doenças diferentes no mesmo órgão). É por isso necessário conhecer melhor o funcionamento da imunoterapia antes de a aplicar de forma generalizada pelo que este tipo de tratamento ainda só é aplicado a determinado tipo de pacientes em que os resultados já se podem prever com algum rigor.
Este assunto levanta, por exemplo, a questão das células dendríticas (e outros tratamentos similares) que são tratamentos disponíveis apenas no estrangeiro como na Alemanha. O que se passa é que nesses países existem regras diferentes para os serviços de saúde público e privado. E enquanto os serviços públicos não podem utilizar tratamentos que não obedecem a determinadas taxas de sucesso o privado pode fazê-lo com qualquer tipo de tratamento que tenha tido resultados positivos mesmo que sem consistência necessária para ser adotado como protocolo padrão. Falo deste assunto não para incentivar as pessoas a procurar este tipo de tratamentos ou a evitá-lo. Mas para terem a noção que mais dinheiro e diferentes tipos de tratamentos não são necessariamente fonte de um melhor prognóstico. Tive oportunidade na minha carreira de investigação de trabalhar com células dendríticas e acredito que serão uma alternativa poderosa de tratamento, mas também por ter trabalhado com este tipo de células reconheço que estamos ainda numa fase em que precisamos de aprender muito mais sobre este assunto antes de o tornar um protocolo de tratamento seguro o suficiente para fazer parte do Sistema Nacional de Saúde.
Todos estes tipos de tratamentos oferecem novas soluções e todos eles têm limitações. Por isso muitas vezes recorre-se à possibilidade de conciliar tratamentos. Quimioterapia com radioterapia (ou imunoterapia) para reduzir os efeitos secundários que uma dose maior de um deles provocaria. Quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia antes da cirurgia para ajudar a reduzir a massa tumoral aumentando o sucesso da cirurgia. Torna-se por isso muito importante compreender que cada paciente tem características diferentes e que por isso é perigoso comparar tratamentos de pacientes achando que poderiam ter o mesmo resultado pelo que cada vez mais os Hospitais adotam estratégias de tratamento personalizadas. Levando a que ao longo dos anos se tenha melhorado o sucesso no tratamento de problemas oncológicos.
Convém também não esquecer que uma alimentação equilibrada, hábitos de atividade física saudáveis, períodos de descanso adequados e uma boa gestão do “stress” contribuem sempre para prevenir e para melhorar o tratamento deste tipo de problemas de saúde pelo que não podem ser descurados tanto antes como após o aparecimento da doença. E caso tenham alguma dúvida, conversem com um profissional de saúde que vos possa esclarecer sobre a vossa situação em particular e qual o melhor comportamento para esse contexto.