Como há anos acontecia, uma vez mais as férias de natal foram passadas na Granja Nova, onde o frio parecia mais forte, os dias mais ocupados e as noites mais longas, pois que em Foz Côa, onde se passava a maior parte do ano, as obrigações, as comodidades e brincadeiras eram bem diferentes.

Então, as indispensáveis viagens, de ida e volta, eram oportunidade de larga imaginação e descoberta, logo a começar pelo transporte utilizado.
Porque as “carreiras” utilizadas (E.A.V.T. e União de Sátão e Aguiar da Beira), com transbordo na Ponte do Abade, eram a horas mais impróprias e com leis mais rígidas, nossos progenitores optavam pelo “carro de aluguer” do senhor Avelino de Matos Paiva. Este, natural de Formilo e morador em Tarouca, onde se estabelecera e casara, alugava e conduzia o seu “Buick”, preto, bem espaçoso e repleto de cromados reluzentes. A parte da frente tinha dois lugares e era separada da de trás por dois vidros que, corridos, davam azo a dois mundos diferentes. Atrás, minha mãe e meus irmãos acomodávamo-nos no banco traseiro e num outro que, mais à frente, se abria quando necessário. Aquela pequena sala dava mesmo para tudo, até para comer. Na bagageira tudo cabia e ainda sobrava espaço.
Pois num desses regressos à então Vila e depois de mais de duas horas de viagem, só quando à porta de casa o carrão parou e tudo foi despejado, se notou que o embrulho dos cobertores havia sido esquecido e ficara donde saíramos. Por isso, se os dos bancos de trás ficámos, arrumámos os outros volumes e voltámos a dar vida àquela casa, os da frente, meu pai e o senhor Avelino, voltaram ao início da viagem.
Já noite e um pouco ensonados, esperámos a chegada da tal carreira que vinha dormir a Foz Côa, para recebermos o embrulho que o pai fora buscar e haveria de nos cobrir, espantando o frio que nos parecia amedrontar. A vinda do sono tudo fez esquecer.